Quando o Pacífico Muda de Sinal: El Niño e o Novo Mapa do Arroz Global para 2026-27
Betina Schmidt Betina Schmidt

Quando o Pacífico Muda de Sinal: El Niño e o Novo Mapa do Arroz Global para 2026-27

Por dois anos, o mercado global de arroz operou sob o signo da abundância. Safras recordes, retomada das exportações asiáticas após restrições governamentais e estoques em patamares historicamente elevados combinaram para derrubar preços e aliviar pressões inflacionárias em todo o mundo. O ciclo, no entanto, está mudando de sinal — e quem opera no mercado de arroz já deveria ter notado.

A La Niña se encerrou. O Pacífico Equatorial entrou em condição de neutralidade, e as projeções mais recentes do Centro de Previsão Climática dos Estados Unidos (CPC/NOAA) apontam 61% de chance de emergência do El Niño no trimestre maio-julho de 2026, com persistência projetada pelo menos até o final do ano. Os modelos do Instituto Internacional de Pesquisa Climática e Social (IRI), da Universidade de Columbia, são mais assertivos: indicam 70% de chance de El Niño se desenvolver em abril-junho de 2026, com o fenômeno permanecendo dominante pelo restante do ano a probabilidades entre 88% e 94%.

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Betina Schmidt Betina Schmidt

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Em fevereiro de 2026, EUA e Índia firmaram um acordo comercial que reduziu a tarifa americana sobre o arroz indiano de 50% para 18%. O movimento não cita o Brasil em nenhum momento — mas muda silenciosamente as condições de competição globais.

A Índia, já maior exportadora mundial de arroz, ganhou acesso preferencial ao mercado americano. Com isso, outros exportadores são empurrados para mercados alternativos — exatamente onde o Brasil tenta crescer, como África e Oriente Médio — aumentando a oferta e derrubando preços nesses destinos.

O reflexo já aparece nos números: a receita brasileira de exportações caiu 18% em 2025, mesmo com volume crescente, e os preços no Mercosul recuaram de US$ 360–370 para US$ 300–310 por tonelada.

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Max Weglot Max Weglot

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Se você produz arroz, é bem provável que 2025 tenha deixado um gosto amargo. A lavoura entregou, a produtividade foi boa, o pacote tecnológico estava em dia – mas a conta não fechou.

Em muitos meses, o preço da saca ficou abaixo do custo total, mesmo com dólar alto e paridade de exportação apontando valores bem maiores no porto de Rio Grande. A sensação foi aquela que todo produtor já teve em algum momento: “eu fiz tudo certo; quem errou foi o preço”.

Ray Dalio, ao explicar a economia, costuma dizer que ela funciona como uma máquina feita de ciclos que se repetem. Preços sobem, estimulam investimento, o excesso de investimento gera excesso de oferta, a oferta derruba os preços, os preços baixos forçam ajuste… e o ciclo continua. No arroz gaúcho entre 2022 e 2025, essa máquina rodou quase exatamente assim.

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